Arquivo para a categoria 'Trivial variado'

Sorte de quem tem sorte

Marcaram uma reunião de condomínio para terça-feira passada e, por sorte, eu tinha compromisso. Só que, para o meu azar, descobri que o sorteio anual de vagas de garagem seria realizado neste dia. O síndico do meu prédio, um senhor muito prestativo, se ofereceu para me representar. E para minha sorte, ele teve uma tremenda sorte e pegou a melhor vaga de todas. Vou passar o próximo ano sem precisar fazer uma manobra.

E por falar em sorte, hoje não peguei trânsito nenhum. Isto aconteceu porque houve um acidente logo antes da entrada da Marginal que costumo entrar. Quem estava para trás não teve tanta sorte assim. Sem falar dos donos dos carros que colidiram e, por sorte, não se machucaram. Com a pista tranquila, pude observar os girassóis que foram plantados à margem do rio Pinheiros. Que falta de sorte, pensei. Podiam ter nascido no jardim de Versailles.

garagem

Pais e filhos

O problema de colocar os filhos em escolas que seguem a linha construtivista é conviver com os pais dos amiguinhos; uma turminha formada por donos de ONGs, publicitários bem sucedidos, empresários da era da sustentabilidade, psicólogos e amigos da Heloisa Helena.
Primeiro veio a comoção geral ao constatar-se que as crianças já conseguem diferenciar círculos de quadrados. Talvez o momento mais humanista da reunião de pais que seguiu com a explicação do trabalho realizado durante o ano e culminou com uma discussão sobre a descoberta da sexualidade.
Não sei por que razão todo mundo adora falar deste assunto. Um engravatado começou (outro dia meu filho me perguntou o tamanho do meu pinto), daí veio uma outra (eu sempre digo para minha filha que ela pode fazer o que quiser com o “pipi” contanto que lave as mãos).
Bizarrices a parte, o troca-troca até que foi proveitoso. Agora tenho uma vaga noção de como agir caso minha filha comece a se masturbar no sofá da sala em pleno almoço de domingo.
Quando eu já estava me levantando para ir embora, lançaram o assunto mais polêmico da noite: a partir do ano que vem as crianças serão obrigadas a usar uniforme!
Parece mentira, mas a questão gerou uma discussão filosófica sobre a democracia, a liberdade de expressão, os direitos das crianças virem fantasiadas de Batman ou, se preferirem, de homem aranha.
De repente, eu estava no meio da revolução pré-escolar de 1968. Tive que pegar minha bolsa e sair correndo antes que começasse uma guerra de mini-cadeiras.

revolução

Cyan 100%

Triste é um fim de semana com cara de meio. Na quarta-feira temos a expectativa da sexta. No domingo espera-se o nada.

O início é um mal inevitável. O motor tem que funcionar e o cérebro precisa sair da garagem. O melhor que pode acontecer é a segunda ter cara de segunda. Nada menos.

Fim de semana triste com dias lindos. Um paradoxo até que freqüente para quem não gosta de sorrisos reluzentes, bicicleta e asfalto quente.

A ausência de nuvens, vento, raios e trovoadas é o sol em sua mais completa solidão.

céu

11

Milhares de pessoas morrem enquanto milhares de pessoas comem pão na chapa. Eu comia um pão na chapa quando o 2º avião se chocou com a 2ª torre do World Trade Center. O 1º eu não vi. Quase ninguém viu. Aconteceu bem na hora que tomavam banho, trocavam de roupa e lamentavam por mais um dia de trabalho. Quem estava com a televisão ligada assistia à Ana Maria Braga que devia estar conversando com um adestrador de hamsters.

Lembro como se não tivessem passado 8 anos. Depois da notícia estar em rede mundial, ninguém mais tirava os olhos da TV pendurada no alto da parede da padaria. Era muita fumaça, gritaria e os repórteres da Globo tentando manter a entonação blasé como se tivesse sido apenas um caminhão que tombou na Marginal.

Paguei a conta, entrei no carro e segui para a agência pensando nos bombeiros heróis, nos desavisados, nos que estavam no lugar errado na hora errada e nos homens e mulheres que, como eu, faziam o de sempre. Sentei na minha cadeira, liguei o computador e trabalhei exaustivamente enquanto acompanhava os detalhes da tragédia. O 1º mundo desmoronou bem diante dos meus olhos. Mas, diferente de todas aquelas pessoas, eu não estava morta no fim do dia.

11 de setembro

Balada me ferve

Tudo que eu queria hoje era paz.
E tem festa na casa da frente.
Já fechei as janelas.
Meu silêncio deixa a música mais alta.
Garotos feios de vinte e poucos anos.
Garotas com menos de vinte gritando “uhu”.
Camiseta pólo, salto agulha e celulites.
Tem gosto pra tudo e hoje eu lamento.
A pior seleção de música dos anos 90.
Meu ouvido não é privada.
Uísque barato e cerveja quente.
Babacas trouxeram maconha com xixi.
Ainda bem que tenho drogas lícitas.
Logo, logo eles viram purpurina.

balada

Job description

Um cara veio puxar papo comigo na Fun House. Ficamos conversando sobre música, cinema e literatura. Certa hora eu perguntei:

- O que você faz?
- Trabalho na rua.
- Como assim?
- Motoboy.

Passei os 10 minutos seguintes tentando me livrar de todos os preconceitos.

- Desculpe, preciso ir.
- Sério? Mas como eu faço pra te ver de novo?
- Pego a Marginal todos os dias.

club

Mães modernas

Hoje de manhã minha filha de cinco anos veio com aquelas perguntas desconcertantes. Me pegou tão desprevenida que eu confundi tudo e disse que os pica-paus é que trazem os bebês.

cegonha

Tags perigosas

Pelo admin do wordpress dá pra ver as palavras e frases que as pessoas digitam nos sites de busca e caem no seu blog. Fico bem feliz porque vários vegetarianos que curtem comer escarola e folhas em geral estão virando meus leitores. Mas hoje um cara veio parar no meu post “putas e anúncios” porque digitou “putinhas de 13″ no google. Para o meu maior desagrado, agora tenho um leitor que gosta de comer criancinhas. E eu quero deixar bem claro que sou terminantemente contra qualquer tipo de putaria na internet.

putaria

fonte: google

Para quem tiver saco de ler

Minha vida não tem nada a ver com as dezenas de poesias que eu escrevia aos 14 anos e meu pai achava uma bosta.

Também não é como as músicas que eu ouvia e ainda ouço na esperança de um dia cair naquela festa cheia de bolhas de sabão com homens e mulheres perfeitos dançando e se beijando ao som de Being Boring do Pet Shop Boys.

O cinema me contou grandes histórias e, hoje, aos 34 anos, queimado ou não, já tenho um filme meu. E pode ter certeza que não era bem isso que eu sonhava lá atrás quando sonhar ainda não era coisa de gente com déficit de atenção.

Não estava no roteiro que hoje eu seria uma pessoa sozinha. E como muitos dizem, por opção.

Se eu tivesse opção, não passaria fome para não ouvir que já estou passada e deixaria de frequentar baladas com pessoas que não sabem nem que o Cazuza foi o primeiro vocalista do Barão.

Não estava no roteiro que hoje eu teria que criar uma filha sozinha. E como muitos dizem, isto é um presente de Deus.

Se eu tivesse opção, não teria inveja dos meus amigos casados que fazem churrasco na laje de arquitetura moderna e aprenderia com o livro de auto-ajuda – “como ser esperta e manipular pessoas” – que a minha filha de 5 anos já escreveu.

Não estava no roteiro que hoje eu trabalharia na melhor agência de propaganda. E como muitos dizem, no lugar onde todo mundo gostaria de estar.

Se eu tivesse opção, estaria tentando mudar o mundo, aquele mesmo que sai no caderno da Folha que eu não tenho saco de ler.

Mussum

Revendo episódios antológicos de “Os Trapalhões” no youtube, lembrei-me da indignação do meu irmão quando o Mussum morreu.
-”Bem que podia ter sido o Dedé.”
(Max)

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