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Encontros e desencontros

Já que caí da cama, resolvi transformar o dia em especial. Para começar, um café da manhã naquele lugarzinho charmoso com pessoas interessantes. Pessoas que podem ler o jornal até 10 horas da manhã são sempre interessantes. Fui muito bem atendida. Tanto pelo garçom quanto pelo sol que, aos poucos, foi iluminando os croissants da vitrine. Um latte e um pãozinho com passas, por favor. Há ocasiões e ocasiões. Esta pedia um latte, não uma média.
Tudo perfeito até sentar-se ao meu lado, nada mais nada menos, que a miss bixete ESPM 1991. Simplesmente não acreditei. Ela estava igualzinha. Os mesmos cabelos loiros, o mesmo corpo cobiçado, o mesmo jeito surfista de falar. Acompanhada de um japonês tirado de “Encontros e Desencontros”, ela agora falava sobre documentários brasileiros. Sim, a miss bixete falava sobre últimos documentários brasileiros, será que eu também havia mudado tanto? Nenhuma ruga, nenhuma gordurinha a mais, provavelmente nenhum contratempo como filhos e maridos.
Engoli o latte e o pão com passas. Tudo que eu não queria aquela hora da manhã era ser reconhecida, embora, muito provavelmente, isso não fosse acontecer. Eu não era a mesma de 17 anos atrás. Muito menos a miss bixete.

Corte de gastos

Depois de muitas críticas, passei a guardar os comprovantes do meu cartão de débito. Só não sei o que fazer com eles, sem falar que se reproduzem em cativeiro, no caso, a minha bolsa. De manhã, fui pegar o batom e um papelzinho azul me atacou. O corte está me incomodando muito, me faz lembrar que estou sem dinheiro no banco.

Sushi

Voltei para casa pensando se algum dia vou comer comida japonesa sem me preocupar se o shoyu vai espirrar na minha roupa. O sushi está sempre na eminência de cair dos palitinhos e isto é angustiante.
Nunca consigo virar o sushi e molhar a parte do peixe no shoyu, o que também me incomoda muito. O arroz se desfaz, fica boiando naquele pratinho mínimo e eu passo o resto da refeição tentando catar um a um.

Campanha da vacinação

Quantas vezes ainda vou desmarcar a vacina do carro. Que mundo… até o meu carro está com baixa imunidade.
Fui. Ia demorar 2 horas, resolvi deixar o carro lá e pegar um táxi. Só não percebi que estava sem dinheiro. E sem cheque. E sem celular para ligar para alguém e dizer o quanto o meu dia estava insuportável.
Decidi vir andando. Um mendigo defecava embaixo do viaduto, tudo bem, pedi desculpas. Um homem agonizava na frente da loja de perucas. Por que bem na loja de perucas?
Agora estou aqui esperando a tarde passar e chegar a hora de pegar o carro. Dizem que o seguro cobre tudo, furto, roubo, acidentes, perdas de tempo, fechadas e xingamentos. Espero que também cubra a motorista.

Restaurando

Dormi. Perdi a hora, não consegui levar minha filha na fono. Talvez não consiga dormir à noite de culpa. O moço do estacionamento disse que algo havia acontecido com o carro. A vida desse carro é agitada até quando ele está parado. Guardei uma única frase da reunião com o cliente que vende comida para presos: a palavra “restaurante” vem de “restaurar”. Olha só que intrigante, devo estar exaurida porque o ticket não dá para o mês inteiro.

O presente

Sexta-feira de chuva. Sem guarda-chuva. Sem problema nenhum.
Quem acorda ouvindo Instant Karma do John Lennon, não pode ter um dia ruim.
Peguei um trânsito de meia hora, adorei. Pude ouvir o CD inteiro.
E chegando na agência, uma surpresa. Uma delicada caixinha de bombons em cima da minha mesa. “Danke”, “Merci”, “Grazie”, “Thank You”. Depois de ler todas essas palavras em cima dos chocolates, como é que eu posso agradecer?
Quem acorda com um presente de uma pessoa tão querida, não tem como ter um dia ruim.

Funghi secchi

Ficar gostosa custa muito caro, quase 400 reais. Sem falar o desgaste físico e mental. O bistrozinho aqui do lado me chamando e eu lá no leg press. Não, não acho que vale o esforço. A caminhada até o bistrô já é suficiente, não é tão do lado assim. Tem que atravessar a Consolação e ir até a Pedro Taques, são muitos e muitos metros e na volta tem uma subidinha básica que já queima todas as calorias do risoto. Aliás, que vontade de preparar um risoto, ficar mexendo o arroz ininterruptamente e beber uma garrafa inteira de vinho até perder o ponto. Vou comprar funghi secchi. Estou com vontade de risoto de funghi secchi. Aquele bem caro, não tanto quanto a academia, e muito mais gostoso.

Pequenas futilidades

Tem vezes que a gente acaba o dia com vontade de tomar um passe. Tem vezes que o que faz bem mesmo é jantar naquele restaurante metido a besta e alimentar a alma com pequenas porções de comida e futilidade. Ultimamente, a segunda opção tem sido bem mais atraente. É verdade que minha conta bancária vem se esvaindo, ao contrário dos meus quadris que estão ficando bastante recheados, mas, enfim, este é o preço da minha frivolidade momentânea.
E para completar esta minha fase “sex in the city”, instalei um som no meu carro. Depois de um ano de caminhos silenciosos, agora canto.

O casamento

Apaixonados há 10 anos, os noivos estavam imóveis no altar enquanto o padre fazia seu discurso desnecessário. As daminhas enroscavam-se no véu dando um show à parte. Os padrinhos se saíram muito melhor no ensaio. Ainda bem.
Mais flores que no imaginário de qualquer noiva, a festa estava perfeita. Pétalas caíam sobre os convidados que cantavam todas as músicas sem saber a letra. Sim, aquela lá tocou.
Luzes e batons de todas as cores, copos marcados de dedos, pessoas suadas. Tudo havia sido arrumado com perfeição para que os convidados pudessem desarrumar com o maior prazer.
Gravatas e sorrisos soltos, maquiagem borrada, sapatos embaixo das mesas e uma conclusão final. Só existe uma coisa mais esquisita que suas tias de braços levantados dançando Gloria Gaynor: você junto com elas.

A tarde

A tarde estava linda.
E despediu-se laranja por entre as tiras da persiana quebrada.

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