Andre,
Estou escrevendo este email para a Aná ou o Sandro ler pra você. Pena não ser uma carta como aquelas que recebíamos em Londres. Eu ainda me lembro como é a sua letra de mão, sabia? Sei tantas coisas de você, sei que seu nome não tem acento.
É impossível pensar em qualquer que seja a parte da minha vida sem que você esteja nela. Quando não é do meu lado é nas memórias ou nas histórias que conto pra todo mundo.
Sabe quantas vezes eu já contei aquela do negão rastafari que vivemos em Londres? E a da festa no apartamento dos meus pais com porradinha de sprite e pinga que fomos parar no quarto da Maria? Ah, tem também aquela na casa do Leonel que eu dormi na mesa. Tinha passado 30 horas viajando pra chegar lá no cú da Suíça só pra te encontrar e vocês ficaram a noite inteira falando francês.
Putz, nem vou começar. Como vinte anos podem caber num email? E hoje em dia é assim, né. Tudo por email. Nada de cartas, caixas de correio, envelopes cheios de fotografia. Em menos de um segundo podemos dizer “eu te amo”. Aliás, Andre, eu já disse que te amo? Bom, vou dizer de novo – eu te amo. E, desta vez, é para chegar até você em menos de um segundo.
Dé, meu coração está aí do seu lado como sempre esteve apesar dos últimos anos que ficamos distantes. Eu já estava de malas prontas para te visitar, como você sabe, e elas continuam aqui paradinhas. Sei que vai ficar bom logo e eu não vejo a hora de tomar um café com você e ouvir todas as coisas maravilhosas que tem para me contar. Quero saber do Vincenzo, já fiquei sabendo que ele é uma pessoa especial. Quero conhecer seu apê novo e dar pitacos na decoração. Quero saber de tudo nos mínimos detalhes.
E eu também tenho coisas para contar. Vou falar da minha filha Elisa – talvez este seja o único pedaço de mim que você não saiba de cor.
Com todo amor deste mundo,
Carol

- Londres, 1997





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