Como sou o tipo de pessoa que comete os sete pecados capitais, quase que diariamente, resolvi homenageá-los escrevendo um texto para cada um. Aqui vai o 1º da série – a preguiça.
A preguiça está diretamente ligada à iniciativa. Quando digo: é hoje que vou até o banco fechar aquela conta que só movimenta taxas, a preguiça vem. E, pelo menos, meia hora antes. A preguiça não tem preguiça, ela está sempre adiantada. E como fazer preguiça é, na maioria das vezes, melhor do que fazer outra coisa, fica difícil resistir. Até, porque, o preço que se paga por entregar-se à ela é a perda de tempo. E o tempo não foi feito para ser guardado.
Uma vez que você abre a frestinha da porta para a preguiça, as chances dela entrar, se acomodar no sofá, e ficar sentada o resto do dia são grandes. A preguiça não vem e vai. Ela é cúmplice de tudo que a gente faz, se esconde atrás da vontade, é uma verdadeira profissional. Temos certeza absoluta que não está lá, daí, do nada, ela aparece. Minha mãe diz uma frase que resume tudo: “Se precisar de algum favor, peça para uma pessoa ocupada”.
E, por falar em resumo, taí a materialização da preguiça. Vivemos a era do resumo. Resumimos conversas, desculpas, até sentimentos. A versão na íntegra sempre fica para depois. E nunca vem. Travestida de impossibilidade, a preguiça instaurou o “pela metade”. E a gente foi vivendo, assim, meio por cima. Se a culpa é da vida moderna e não há mais tempo para sermos gente de verdade, eu não sei. O fato é que o dia sempre teve 24 horas. Do período glacial ao pós-internet.
Diferente de outros pecados, a preguiça vem em três graus de intensidade. Tem a preguicinha (é só respirar fundo) que passa, tem a preguiça que resiste a todos os impulsos do corpo, e tem a preguiça máster – aquela que reina absoluta e não vai embora nem por um… Deixar de ir ao banco para fechar a conta inativa é, para mim, uma preguiça de grau três e, por isso, vence. Mas, eu não deixo a preguiça me dominar. Quero viver. E cometer outros pecados.
O dia-a-dia é feito de pequenas preguiças. O elevador, por exemplo. Esperar o elevador dá preguiça, entrar no elevador lotado dá preguiça, pedir aos passageiros darem aquela afastadinha para você sair, dá uma baita preguiça. O pedágio, então, é a preguiça presa numa cabine. Só de olhar ele chegando… depois ficar na fila… e esperar a mulher dar o troco? Quilômetros de preguiça.
A lista da preguiça é interminável. Entrar no banho, sair do banho, fazer xixi no meio da noite, baliza, tirar as compras de supermercado, levar o carrinho de volta para a garagem, falar, levantar do restaurante, levantar de qualquer lugar, parquinho, encher o tanque de gasolina, esportes (todos eles), passar creme, pendurar a toalha, caixa eletrônico, voltar para pegar o casaco, perder o controle remoto da TV, e-mails, apagar a luz, amigo secreto, pediatras, dermatologistas, oculistas, tele-marketing – nem vou falar das(o) operadoras de tele-marketing que durmo. Mas, como tudo tem dois lados, a preguiça pode fazer o bem – ai, que preguiça de invadir o Iraque e matar umas pessoas – pena que ela não é tão influente.
Enfim… À preguiça, um abraço apertado e até daqui a pouco. Minha companheira fiel, esteve presente o tempo todo que escrevi este texto.

por SheiMim
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