Arquivo para a categoria 'Memórias'

Amor

Houve amor quando ele entrou no quarto vestindo apenas roupa de baixo com duas xícaras de chá.
Houve amor quando ela comprou os óculos parecidos com o Ray Ban Aviator que ele tanto queria e não podia comprar.
Houve amor quando ela o largou.
Houve amor durante os anos que ficaram sem se falar.
Houve amor junto com todos os palavrões que ele vomitou porque não queria que ela o expulsasse de casa.
Houve amor quando ela desejou que o vulcão interrompesse o tráfego aéreo para a viagem não acabar.
Houve amor quando ele a traiu.
Houve amor quando ela o perdoou.
Houve amor quando não tinha nada mais fantástico do que ficar no quarto.
Houve amor quando ele esperava até duas da manhã para falar com ela por causa da diferença de fuso horário.
Houve amor quando era impossível estar junto.
Houve amor quando era impossível estar separado.
Houve amor quando havia 90% de chance dela não gostar do lenço azul, mas ele comprou mesmo assim.
Houve amor quando ela gostou do lenço azul principalmente porque tinha sido ele quem tinha dado.
Houve amor quando ela pediu para voltar.
Houve amor quando ele cansou de amar.

Amor em sépia

Fui à margem do rio e vi a beleza em sépia.
O sol só estava esperando para me mostrar como é um outono de verdade.
Agradeci com a minha câmera fotográfica que eu mal sabia usar.
O vento gelado até que tentou secar meus olhos; em vão.
O frio sugeriu mais agasalho.
Resolvi respeitar e voltei ao hotel pelo tapete amarelo craquelado.
De repente, minhas botas vermelhas saíram do chão.
Lá estava a pessoa que me faria sentir em Paris pelo resto da vida.

11

Milhares de pessoas morrem enquanto milhares de pessoas comem pão na chapa. Eu comia um pão na chapa quando o 2º avião se chocou com a 2ª torre do World Trade Center. O 1º eu não vi. Quase ninguém viu. Aconteceu bem na hora que tomavam banho, trocavam de roupa e lamentavam por mais um dia de trabalho. Quem estava com a televisão ligada assistia à Ana Maria Braga que devia estar conversando com um adestrador de hamsters.

Lembro como se não tivessem passado 8 anos. Depois da notícia estar em rede mundial, ninguém mais tirava os olhos da TV pendurada no alto da parede da padaria. Era muita fumaça, gritaria e os repórteres da Globo tentando manter a entonação blasé como se tivesse sido apenas um caminhão que tombou na Marginal.

Paguei a conta, entrei no carro e segui para a agência pensando nos bombeiros heróis, nos desavisados, nos que estavam no lugar errado na hora errada e nos homens e mulheres que, como eu, faziam o de sempre. Sentei na minha cadeira, liguei o computador e trabalhei exaustivamente enquanto acompanhava os detalhes da tragédia. O 1º mundo desmoronou bem diante dos meus olhos. Mas, diferente de todas aquelas pessoas, eu não estava morta no fim do dia.

11 de setembro

(Entre parênteses)

Você foi embora. (de novo)
E quando disse para eu ser feliz (mais uma vez), me perguntei se isso já não era para estar acontecendo.

Não vou mais poder olhar para você. (nem de longe)
Nem sorrir quando você olha para mim. (mesmo que de vez em quando)

O tempo fez a maioria das coisas em mim perder a graça. (eu sei)
Mas eu ainda tenho o livro do Adão que você me deu quando a gente ria à toa. (lembra?)

Você foi um dos meus não arrependimentos. (pode ter certeza)
E vai ser (de novo) uma lembrança daquelas que vem com um sorriso de canto.


Ouvi esta música duas vezes no rádio estes últimos dias. (me lembra você)

Meu conga

Até os 14 anos eu morei na rua Ferreira de Araujo, em Pinheiros, uma região que hoje é super hype, cheia de bares, galpões de artistas e bazares de moda. Mas, naquela época não tinha nada disso, era só um bairro ao lado do Largo da Batata, o maior centro de macumba de São Paulo.
Morávamos num prédio de classe média baixa, apesar de minha mãe ser jornalista e meu pai ganhar uma puta grana como diretor de teatro. E, graças à filosofia “não temos o carro do ano, mas meus filhos fazem intercâmbio na Inglaterra”, estudei no Colégio Palmares junto com a prole da extrema-direita milionária paulistana e nunca fiz uma festa de aniversário porque morria de vergonha de trazer meus amigos em casa.
Apesar do broche de estrela do PT que eu só usava para irritar a idiota da diretora, sempre tive inveja das patricinhas que desfilavam com calças da Fórum, sapatos Sidewalk e camisetas Hard Rock Café Orlando. Tudo isso para dizer que a minha fascinação por roupas não veio com o tempo, mas nasceu comigo. Eu ficava indignada com os tops de lycra que o povão usava com as banhas saltando pra fora. Tudo bem que aqui no Brasil ninguém tem condições de seguir as últimas tendências de Paris, mas por que as pessoas não saem de casa de jeans e camiseta branca? Juro que era nisso que eu pensava quando ia para a escola de Conga porque o Bamba (que era um pouquinho melhor) também era mais caro.

conga

Pequenas estrelas, riscos e espirais

Acho que vou comer morangos. Combinam demais com esta seleção de músicas. Vou pintar cada CD de um jeito, um com pequenas estrelas e o outro com riscos e espirais. É claro que vou usar aquela caneta apropriada. A tinta não sai, assim como as palavras que, mesmo borradas, ficaram gravadas na minha memória cantada.
Eu gostava tanto dessa da Rita Lee que não me diz mais nada. Essa outra eu não entendia. Tinha uma que eu achava lenta demais e, de repente, passou. E aquelas que eu simplesmente pulava, não faço idéia de onde estão. Uma pena minha vida não ter ficado lá guardada junto com os refrões. Eu adoraria revivê-la em mp3.

A volta

Desde a madrugada do ano novo que eu não acompanhava o nascer do sol. Acordei às 6:03 e ainda estava escuro. Peguei o carro, ninguém na rua. Quando cheguei no parque Vila Lobos, ele estava pintado de rosa.
Carneirinhos em degradês de vermelho e roxo pulavam de trás dos prédios, achei que ainda estava dormindo. Alonguei cada um dos meus músculos que, diferente do dia, acordavam depois de um ano. Corri alguns quilômetros ao som da playlist “corrida 2″. A versão “corrida 1”, feita no ano passado, já não estava mais no ritmo. Não no meu.
De um lado do parque passa o rio Pinheiros, o que dificulta bastante o controle da respiração ritmada. Do outro, vem a lapa, a Vila Leopoldina e o conjunto de prédios no qual morei grande parte da minha adolescência.
Junto com os primeiros raios de sol, vi meus 15 anos refletidos naquelas janelas. Senti de novo o gostinho de ser amada pela primeira vez. E foi então que eu pensei: melhor do que sonhar com o futuro é acordar com o passado.
Dei a volta toda na pista e, com aquela sensação de dever cumprido, comecei a caminhar. Ao meu lado, os velhinhos faziam tai chi chuan, os playboys jogavam tênis e eu sentia de tudo um pouco. Nada melhor do que extravasar correndo no parque. Você pode berrar, todo mundo está com fones de ouvido. Você pode morrer de chorar, todo mundo vai pensar que você só está suando.

Foto: Selenis

As margaridas

Um dia, tudo mudou. A realização dos seus sonhos não seria mais no dia seguinte.
Um dia, o cenário era outro. Seus pensamentos não viam somente o que estava diante dos seus olhos. Um dia, o sol amanheceu de outra cor. Deitou-se num campo de margaridas, olhou para todas aquelas pétalas brancas e percebeu que a vida havia começado.


Foto: Palomino (patsy)

Suas antigas risadas

Vinte anos atrás, uma hora era uma eternidade, os pinheiros na estrada contavam os minutos que ainda faltavam, o pãozinho com manteiga que a avó tirava da bolsa ainda embrulhado no papel da padaria marcava a metade do caminho.
Vinte anos depois, as ruas estavam asfaltadas, havia mais postes, menos luz. As novas casas eram mais suntuosas, os antigos sítios se esconderam atrás do mato que não crescia mais solto, assim como as crianças que agora olhavam duas vezes antes de atravessar.
Teve que ser anunciada, mesmo ainda vendo no chão as marcas dos seus pesinhos sujos de barro. O portão eletrônico não a reconheceu, o guardinha que gentilmente baixava a corrente devia estar de folga já há um bom tempo.
Entrou no condomínio e sentiu aquele cheiro de história guardada. Ela não precisava mais se encaixar no pequeno espaço entre a porta e o banco da frente para sentir o vento no rosto. Esticou o braço para fora da janela, respirou o resto de ar puro do mundo e pegou de volta todas as suas antigas risadas.

Madrugada nos back-ups

Ontem resolvi vasculhar meus back-ups. Tudo desorganizado, nenhuma descrição nas capinhas, tive que ir olhando os cd’s um a um. Depois que cliquei no primeiro, a curiosidade foi muito grande para voltar atrás, não teve jeito, embarquei numa viagem pelos meus últimos dez anos na frente do computador. Encontrei antigos trabalhos (um banco gigantesco de títulos de moto e remédio para gases), emails importantes (incrível como só os que a gente não guarda acabam sendo úteis depois), cartas de amor, desabafos de amor (as palavras são as mesmas dos meus arquivos de hoje), inícios de livros que eu gostaria de ter escrito e nunca foram pra frente, pesquisa de lugares legais para conhecer em Londres, Nova York e Paris (estranho ver tudo isso depois que os planos viraram histórias), conversas no icq (instantes que devem ter sido significativos na época, hoje parece que nem foram vividos) e fotos. Essa foi a pior parte. Vi pessoas que não encontro há anos em situações que eu pensei que não haviam existido, revivi dias comuns, no trabalho, em casa, voltei para aquele fim de semana na praia e, o inevitável, reencontrei as Carols que não existem mais. Já tive cabelo joãozinho, já usei saia com babados, já fiz 28 anos, já apareci na Caras, já fui bem mais sorridente. Foram quase duas horas de saudosismo digital embaladas pelos arquivos de mp3 da época. Fiquei exausta, fui dormir super tarde e cheguei à conclusão de que a vida é isso aí, uma compilação de folders.

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