Arquivo para a categoria 'Literatura'

A verdade

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

- Drummond

* sem fotos desta vez. não existe uma imagem que represente a verdade

A garota vudu

Sua pele é de um claro tecido,
Todo costurado e refeito.
Muitos alfinetes coloridos
Despontam-lhe à altura do peito.

Olhos que giram coloridos,
Ela possui dois pares.
Olhos de poderes hipnóticos:
Olhos de apaixonar os rapazes.

Rapazes que coloca em transe,
Como verdadeiros zumbis.
É o caso de um zumbi francês,
Que depois só dizia “Oui, oui”.

Mas ela também tem uma sina
Que jamais pode ser quebrada:
Se alguém dela se aproxima
Seu coração sente as espetadas.

Tim Burton

garota vudu

Peraltagens e despropósitos

“Você vai carregar água na peneira a vida toda. Você vai encher os vazios com as suas peraltagens e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos.”

- Manoel de Barros

Roubei este trechinho do blog da Sica. Não resisti.

vazio

Maria

Todo mundo tem uma crônica de bolso, eu acho. A minha é a mesma desde que tenho 15 anos. Paulo Mendes Campos não fez tanto sucesso na história da nossa literatura. Mas confesso que fez uma diferença absurda na minha. Até hoje, depois da centésima releitura, me emociono com as palavras que ele cuidadosamente escolheu para explicar a vida para Maria da Graça.

Aqui vai um trecho de “Para Maria da Graça” de Paulo Mendes Campos:

“Toda a pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.”

Se alguém quiser ler a crônica inteira:

http://www.geocities.com/rcultural/cronicas/Campos/paramaria.html