Arquivo para a categoria 'Elucubrações'

Devolva o Neruda que você me tomou

Eu estava só revirando a estante de livros quando o Neruda, com cheiro de guardado, devolveu o amor que você me tomou. E nunca leu.

………..

Pensei morrer, senti de perto o frio,
e de quanto vivi só a ti deixava:
tua boca eram meu dia e minha noite terrestres
e tua pele a república fundada por meu beijos.

Nesse instante terminaram os livros,
a amizade, os tesouros sem trégua acumulados,
a casa transparente que tu e eu construímos:
tudo deixou de ser, menos teus olhos.

Porque o amor, enquanto a vida nos acossa,
é simplesmente uma onda alta sobre as ondas,
mas ai quando a morte vem tocar a porta

há teu olhar apenas para tanto vazio,
só tua claridade para não seguir sendo,
só teu amor para fechar a sombra.

- Neruda (Cem Sonetos de Amor)

Crenças e bundas

Outro dia comentei no facebook que, apesar de ser totalmente contra o trabalho infantil, contrataria redatores de 5 anos para criar os filmes publicitários de Natal. Como é que pode sair alguma coisa realmente boa de uma cabeça de 34 anos que não acredita em Papai Noel nem em propaganda?

Minha filha Elisa acredita em Papai Noel. E em propaganda. Canta os jingles, dos piores aos menos piores, e sai correndo para me pedir a nova Barbie no instante seguinte que acaba o comercial. E eu não posso ser hipócrita e proibi-la de ver televisão. Até porque, graças ao novo conceito de propaganda 360º, a boneca persegue minha filha na escola, no supermercado e na casa das avós.

Então, retificando, eu acredito sim em propaganda. Mais do acredito em Deus e em cremes para celulite que, aliás, nem precisam fazer propaganda porque vendem por si só. Não tem uma mulher, nesta vida pelo menos, que não sonha em ter a bunda lisinha como a da Barbie.

Barbie

Caloi Ceci

Sentiu aquilo de novo, mas sabia que era mentira. Sentimentos são como monstros, não existem. Lembrou da sua mãe no dia que caiu da Caloi Ceci pela primeira vez “por acaso você esfolou os dois joelhos para chorar deste jeito?”
Não era mais criança para acreditar em dor. E mesmo que fosse verdade e seu coração estivesse realmente todo esfolado, merthiolate não arde mais.

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Pura verdade

- Não sou apaixonado por você.

- Como não? Falei as coisas mais inteligentes que você já ouviu. Fui sexy o tempo todo. Descontraída nas horas que você queria. Forte nas que precisou. Pareci frágil para te dar poder. Forte para não perder o controle. Resgatei minhas melhores histórias. Verdadeiras e inventadas. Fui fantástica na cama. Fiz você se sentir mais fantástico ainda. Joguei na medida. Me entreguei na medida. Calculei todos os comentários. Segurei as lágrimas. Soltei os sorrisos. Eu…

- Você precisa tirar férias de ser incrível.

Amarelo fosforescente

São 10 da noite e eu tenho que criar um anúncio. Está escrito no briefing que é para amanhã até as 15 de qualquer jeito. Passaram até aquela caneta fosforescente amarela para eu saber que o cumprimento do prazo é de extrema importância.
Não tenho a menor idéia do que fazer, mas acabo de decidir que vou passar a caneta fosforescente no meu corpo. Vou começar pelo peito, perto do coração, ainda não ficou clara a urgência de tudo que tem aqui dentro. Quero subir pelos ombros e chegar até o pescoço. A dor que eu sinto ao virar a cabeça para os lados está aqui há anos. Se ficar bem amarela, não vou me esquecer de que preciso fazer alguma coisa. Estou me vendo. Não posso parar agora. Vou grifar as olheiras, ressaltar as marcas do tempo e fazer um círculo em volta da minha boca. Preciso sorrir. Sem falta. Também quero deixar bem marcado todo e qualquer espaço entre os fios de cabelo. Existem parágrafos inteiros aqui embaixo para serem lidos e compreendidos. E tem que ser hoje. Impreterivelmente. Não dá para esperar até amanhã depois das 15.

eu

A lucidez da ignorância

Me bateu um ódio mortal das pessoas ignorantes com as quais já convivi. Não existe esforço mais em vão que tentar abrir as portas de uma pessoa ignorante. Elas só não absorvem nada como tornam-se ignorantes à própria incapacidade de absorção. Os ignorantes acham que inspirando cultura dos outros vão expirar lucidez. Mas a única maneira de enxergar algum crescimento nos ignorantes é fazendo-os subir na balança. Já que decidiu pensar, meu caro, coloque uma coisa na cabeça (se for possível): sua lucidez vai sair correndo pela mesma porta que vem tentando entrar.

ignorancia

Blindness

Conheci um senhor de 92 anos na última sexta-feira.
Ele veio se arrastando e disse:

- quer casar comigo?
- o senhor está falando sério?
- podemos dar certo, meu amor é cego.

Evgen Bavcar

- foto do meu querido Evgen Bavcar

Você não polui

Papel - 6 meses
Alumínio – 80 anos
Plástico – mais de 100 anos
Pneu – 600 anos
Vidro – 1 milhão de anos

Vida - quando você percebe que jogou fora, já deteriorou. Pode até separar os anos e colocar nos lixos apropriados. Tirando suas idéias ultrapassadas, o resto não dá pra reciclar.

Vik Muniz

Vik Muniz

Limpar privada vira campeonato

Navegando pelo UOL me deparei com a seguinte enquete:
Qual foi a melhor empregada da novela “Caminho das Índias”?
Tirando o fato que se passa na Índia, não sei mais nada sobre a novela que pode, inclusive, ser uma trama voltada à problemática das empregas estilo “Domésticas” de Fernando Meirelles.
Sem querer desmerecer o programa que eu realmente não conheço em profundidade, uma enquete para saber qual foi a melhor empregada da novela é um afronto à dignidade do brasileiro e, principalmente, das milhares de brasileiras que passam o dia limpado a sujeira dos outros.
Quando várias empregadas chegam a ter papéis relevantes a ponto de conduzirem a trama banal de uma novela da Globo é porque a diferença sócio-econômica, o problema mais grave deste país, tornou-se algo inquestionável. Nas novelas existem as mocinhas, os mocinhos, os vilões e as empregadas que limpam o cocô de todo mundo. Nada mais natural, não é mesmo?
Errado. Nenhuma mulher nasceu pré-destinada a ser empregada (talvez na Índia), mas no Brasil isto é um problema muito sério e complexo que não pode ser tratado de maneira tão irresponsável, principalmente pela emissora de maior audiência deste país.
Não vou me surpreender se daqui um tempo eu acessar novamente o UOL e encontrar uma nova enquete:
Qual a melhor criança abandonada da nova novela das oito?

empregadas

A herege

Aprendi que acreditar em alguma coisa após a morte nos faz aceitar as desgraças do mundo. Nada mais sensato. “Que Deus cuide das criancinhas subnutridas em Serra Leoa” é algo muito fácil de pensar deitada no meu sofá na Vila Madalena.

Quero ter fé, mas me sinto pecando. Minha racionalidade é tanta que vejo a alma escorrendo pelo ralo toda vez que tomo banho. Mas não sou forte o bastante para arcar com meus erros. É duro demais não ter a quem recorrer. O cara que inventou aquela do “vivendo e aprendendo” era um puta de um masoquista.

Não dá mais para culpar os pais. Não dá para culpar a garota idiota que não me deixava brincar de Barbie. E assumir “sim, caguei” é de uma crueldade sem tamanho. Não é à toa que me pego olhando para cima com as mãos na cabeça – “puta que pariu, me ajuda”.

ceu

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