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Ela 2

A professora distribuiu duas folhas grampeadas para cada um dos alunos com cinco problemas em ordem crescente de dificuldade. O cheiro forte do mimeógrafo tomou conta da sala. Ela tinha oito anos e, diferente de grande parte da turma, seus problemas não eram apenas os cinco que estavam ali.
O primeiro foi muito fácil, chegou no resultado correto com uma soma simples seguida de uma divisão exata. Também não teve dificuldades com o segundo, nem com o terceiro e, apesar de ter levado mais tempo no quarto do que nos outros três juntos, conseguiu solucioná-lo depois de algumas tentativas.
Quarenta minutos foi o tempo que gastou pensando no último. Tentou de tudo, leu e releu as instruções, riscou e apagou os rabiscos com a borracha verde, quis desistir, quis sair correndo e não voltar mais.
Do outro lado da sala estava ele, calmo, imóvel, com todos os problemas resolvidos em cima da carteira, aqueles e outros que nem fazia conta.
Olhava para ela com ternura e compaixão. Queria poder estar lá ao seu lado catando os números certos perdidos no chão. Queria poder dar-lhe a mão e levá-la às respostas, a todas as respostas. Queria entender o que ela estava sentindo assim como entendia a matemática e as outras tantas ciências da infância, todas tão fáceis de calcular.
Entreolharam-se.
Do outro lado da sala, ela pôde ler seus lábios de menino: você precisa de ajuda?

… continua

Ela 1

Raciocinar numericamente não era uma de suas habilidades. Era uma menina inteligente, de certo, mas diante do professor e dos problemas a serem resolvidos na lousa, seu cérebro travava. Se conseguisse ir um pouquinho além, chegaria na solução correta. Fazia um esforço até que razoável para isso, mas este acabava no momento que começava sua preguiça. Uma preguiça misturada com incapacidade mesmo; com uma neblina que barrava a entrada dos resultados. Ela parava de pensar e roia todas as unhas da mão; as que ainda restavam. E, além das unhas, sofriam também as folhas do caderno que ficavam eternamente marcadas pela força da sua letra. Uma força que vinha do excesso de pensamentos, os mesmos que agora não conseguiam enxergar os números.

…continua

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