Arquivo para Julho, 2008

O disco voador

Ontem eu vi um disco voador. Ele passou bem rápido pela minha janela, mas pude ver um homenzinho verde claro com formas longilíneas e sorriso no rosto. Ele acenou com suas mãozinhas fininhas e compridas e fez brotar de seus dedos uma mensagem em raios ultravioletas. Ali estava o segredo da vida. Em extraterrês, mas meu coração fez tradução simultânea.

Pequenas estrelas, riscos e espirais

Acho que vou comer morangos. Combinam demais com esta seleção de músicas. Vou pintar cada CD de um jeito, um com pequenas estrelas e o outro com riscos e espirais. É claro que vou usar aquela caneta apropriada. A tinta não sai, assim como as palavras que, mesmo borradas, ficaram gravadas na minha memória cantada.
Eu gostava tanto dessa da Rita Lee que não me diz mais nada. Essa outra eu não entendia. Tinha uma que eu achava lenta demais e, de repente, passou. E aquelas que eu simplesmente pulava, não faço idéia de onde estão. Uma pena minha vida não ter ficado lá guardada junto com os refrões. Eu adoraria revivê-la em mp3.

A pensar

Pensou, pensou, pensou. Em vão. Estava tudo marcado, seria aquilo que estava escrito e assunto encerrado. E agora que havia descoberto isso, não sabia mais o que fazer, já que o fazer não lhe era de costume.
Tirou o suco de laranja da geladeira e pensou se aquilo também já estava escrito. Que tolice, pensou de novo. Estava pré-destinada a pensar.

O presente

O passado não existe mais, o futuro é um mistério e o presente é uma dávida.
Por isso que se chama presente.

Essa noite não

Vida louca essa. Ontem me sentei ao lado do Lobão num restaurante e, assim como quem não quer nada, ele veio puxar papo:

- Chove lá fora, né?
- É verdade, está tudo tão cinza.
- Você sabia que as pessoas estão enlouquecendo calmamente?
- Deve ser a solitude, a solidão.
- Então, eu vou sempre dormir sentindo o que a solidão pode fazer.
- Me telefona, me chama.
- Você está me convidando, menina, você quer brincar de amar?
- Na verdade, nada é o que parece ser.

Antes de sair, ele falou comigo mais uma vez.

- Por favor, não me interpreta mal. Mas, eu quero você toda nua.
- Essa noite não, eu respondi. Essa noite não.

Pequenas futilidades

Tem vezes que a gente acaba o dia com vontade de tomar um passe. Tem vezes que o que faz bem mesmo é jantar naquele restaurante metido a besta e alimentar a alma com pequenas porções de comida e futilidade. Ultimamente, a segunda opção tem sido bem mais atraente. É verdade que minha conta bancária vem se esvaindo, ao contrário dos meus quadris que estão ficando bastante recheados, mas, enfim, este é o preço da minha frivolidade momentânea.
E para completar esta minha fase “sex in the city”, instalei um som no meu carro. Depois de um ano de caminhos silenciosos, agora canto.

A mar não tá pra peixe

Algumas horas

A noite de lua cheia estava fria, mas os aquecedores portáteis deixavam o clima agradável. As poucas opções do cardápio eram muitas, maior ainda era a preguiça de ler a descrição dos pratos. Um croque moussier, por favor, o madame estava em falta. Lastimável. Um bistrô sem ovos chega a ser pior que uma cantina sem molho de tomates.
Aquelas eram suas primeiras sensações do dia. Seu primeiro gole de água, seu primeiro contato com a rua. Carros passando, casais caminhando, o sábado estava cheio de pessoas, todas vivendo sua 3ª refeição. Pensou em pedir uma taça de vinho, mas preferiu a boa e velha água com gás. Combinava mais com o desjejum.
Enquanto expressos passeavam de um lado para o outro, ficou admirando as estampas dos azulejos antigos que, atrás do bar, formavam uma composição encantadora. De repente, sentiu-se na casa de todas as avós do mundo.
Enfim, o croque foi uma deliciosa surpresa, mais queijo do que presunto, o pão gratinado na medida certa. A salada de acompanhamento estava mais para um boa companhia.
Uma escolha muito feliz. Tanto a do prato, quanto a do tempo. Tem dias que fazem muito mais sentido quando duram apenas 3 horas.

Até mais tarde

Colocou o celular na função soneca 3 vezes. Durante estes poucos minutos, sonhou que estava no banho, que o celular tocava de novo e que já estava vestida, não exatamente nesta ordem. A luz que vinha da porta do banheiro incomodava, mas o seu rosto pesava no travesseiro novo que, juntos, eram uma coisa só.
Foi vencida pelo senso de responsabilidade. Levantou-se arrepiada de frio e de sono, tirou o pijama e entrou num banho quente o suficiente para continuar se sentindo embaixo do cobertor. Como sempre, o banho foi muito mais eficiente que o despertador. O sorriso dele mais ainda. Uma nova manhã acabava de entrar no quarto desarrumado. Os cabelos molhados, a toalha macia e o abraço úmido diziam que aquele seria um bom dia. Faltavam agora o pãozinho quente, o café com espuminha de leite e um “até mais tarde”.

Blueberry muffin

Fazia o mesmo caminho todos os dias. Saía do metro e subia as escadas imundas. Os cartazes colados e recolados na parede também eram imundos. E rasgados. E, apesar de suja, a cidade tinha cheiro de música. O guitarrista que ficava na esquina se apresentava a um público eclético, meninas de cabelos cor-de-rosa mascando chicletes, homens de cabelos grisalhos com seus tablóides embaixo do braço. Nunca havia parado para ouvir uma música inteira, mas foi juntando os pedaços e acabou decorando o repertório.
A rua estava sempre igual, as vendinhas, os sebos, um seguido do outro, todos com os mesmos livros em edições diferentes. O barulhinho do sino alertava alguém entrando ou saindo do café onde ela parava para comprar um blueberry muffin. E lá estava ele, sempre ocupado, mas sempre atencioso. Quando a via, logo tirava o saquinho com o pedido que ela já não precisava pedir. Trocavam olhares, sorrisos e moedas, mas jamais ultrapassariam a segura distância delimitada pelo balcão.

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