Desde a madrugada do ano novo que eu não acompanhava o nascer do sol. Acordei às 6:03 e ainda estava escuro. Peguei o carro, ninguém na rua. Quando cheguei no parque Vila Lobos, ele estava pintado de rosa.
Carneirinhos em degradês de vermelho e roxo pulavam de trás dos prédios, achei que ainda estava dormindo. Alonguei cada um dos meus músculos que, diferente do dia, acordavam depois de um ano. Corri alguns quilômetros ao som da playlist “corrida 2″. A versão “corrida 1”, feita no ano passado, já não estava mais no ritmo. Não no meu.
De um lado do parque passa o rio Pinheiros, o que dificulta bastante o controle da respiração ritmada. Do outro, vem a lapa, a Vila Leopoldina e o conjunto de prédios no qual morei grande parte da minha adolescência.
Junto com os primeiros raios de sol, vi meus 15 anos refletidos naquelas janelas. Senti de novo o gostinho de ser amada pela primeira vez. E foi então que eu pensei: melhor do que sonhar com o futuro é acordar com o passado.
Dei a volta toda na pista e, com aquela sensação de dever cumprido, comecei a caminhar. Ao meu lado, os velhinhos faziam tai chi chuan, os playboys jogavam tênis e eu sentia de tudo um pouco. Nada melhor do que extravasar correndo no parque. Você pode berrar, todo mundo está com fones de ouvido. Você pode morrer de chorar, todo mundo vai pensar que você só está suando.


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