Arquivo para Junho, 2008

Verdades e mentiras

Eu queria falar da verdade. Daquela que poucas pessoas conhecem, ou se lembram que existem. Da verdade das palavras que saem quando são sentidas, e na mesma hora em que são sentidas. Do “não gostei” sem amarras, do “eu te amo” sem medo de não ser.
Eu queria me esquecer de todas as mentiras ou, pior, de todas as quase verdades. Das desculpas sem perdão, do “bom dia” por educação, do medo de magoar.
Eu queria dizer a verdade, ser a verdade, nem que ela seja a parte mais feia de mim. Não me importo em ser taxada de a dona dela ou de ouvir as piores verdades. Quero ser translúcida nas lágrimas e sincera nas risadas. Quero ser a louca, mas não a que se abstém. Porque abster-se é anular um instante. Ou mentir que ele existiu.

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Histórias inventadas

Tudo bem inventar histórias, o problema é acreditar nelas.
Sofro deste mal desde menina e, ao contrário do que se espera de uma mulher que já leu muitos contos de fadas, isso só se agravou com o tempo.
Certa vez, inventei uma de príncipe e princesa, tinha jura de amor eterno, luta contra dragões, sapatinhos e roupas perdidas no chão.
Só me esqueci de um detalhe: a maçã envenenada estava dentro da minha geladeira.
Eu bem que podia ter ouvido os anões, eles tentaram me avisar sete vezes.
Mas, eu fiquei com fome, e não tem jeito, a gente sempre tem fome.
Até nas histórias inventadas.

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Tudo bobagem

Entramos no casebre que um dia foi nosso. Os móveis ainda estavam lá, as cortinas, as marcas da nossa última noite, as fantasias da primeira. Mas, apesar de estar tudo intacto, o pó ocupou o lugar das melhores lembranças.
Ficamos ali por algumas horas, ouvimos nossas músicas, as minhas, as dele, jogamos conversas fora, lembramos de tudo que jogamos fora. E a alguns metro de distância, vivemos de novo aquela vida que construímos lado a lado.
Demos risadas das coisas boas, demos risadas das coisas ruins. Achamos graça de tudo, apesar de não haver mais nada para achar. Criamos uma nova história em cima de pedaços daquela última que um dia já havia sido contada. Invertemos a ordem dos fatos, confundimos as datas, trocamos o começo pelo fim.
Tudo bobagem. No fundo, no fundo eu não queria ter dito nada, nada.

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Ela 2

A professora distribuiu duas folhas grampeadas para cada um dos alunos com cinco problemas em ordem crescente de dificuldade. O cheiro forte do mimeógrafo tomou conta da sala. Ela tinha oito anos e, diferente de grande parte da turma, seus problemas não eram apenas os cinco que estavam ali.
O primeiro foi muito fácil, chegou no resultado correto com uma soma simples seguida de uma divisão exata. Também não teve dificuldades com o segundo, nem com o terceiro e, apesar de ter levado mais tempo no quarto do que nos outros três juntos, conseguiu solucioná-lo depois de algumas tentativas.
Quarenta minutos foi o tempo que gastou pensando no último. Tentou de tudo, leu e releu as instruções, riscou e apagou os rabiscos com a borracha verde, quis desistir, quis sair correndo e não voltar mais.
Do outro lado da sala estava ele, calmo, imóvel, com todos os problemas resolvidos em cima da carteira, aqueles e outros que nem fazia conta.
Olhava para ela com ternura e compaixão. Queria poder estar lá ao seu lado catando os números certos perdidos no chão. Queria poder dar-lhe a mão e levá-la às respostas, a todas as respostas. Queria entender o que ela estava sentindo assim como entendia a matemática e as outras tantas ciências da infância, todas tão fáceis de calcular.
Entreolharam-se.
Do outro lado da sala, ela pôde ler seus lábios de menino: você precisa de ajuda?

… continua

No espelho

Olhei no espelho, procurei aquela garota que carregava orgulhosa o broche da estrela vermelha no moletom do colégio particular e não encontrei.
Vi, ali, uma mulher maquiada e muito bem vestida, preocupada apenas em não se atrasar para a reunião na multinacional.
Uma mulher que esqueceu de fazer supermercado, que esqueceu tudo sobre o AI-5 e que, agora, só luta contra os mecânicos incompetentes da Volkswagen.
O sonho de ser jornalista da revista Terra, defensora da igualdade social, e a Isabel Allende brasileira se perderam em alguma bifurcação da vida. Ou da Av. Faria Lima, não sei.
Mas tenho certeza que deixei todos os meus ideais em alguma gaveta do armário. Se bobear, foram junto com aquelas roupas velhas que doei para a empregada.
Quase não leio jornal e a TV fica no Discovery Kids. Não sei o que acontece no meu bairro, nem no Tibet.
Acabei virando uma pessoa que coleciona sapatos de salto alto, pseudo-satisfeita com o mundo, e vaidosa ao ponto de se contentar com um uma vida de design assinado.

Ela 1

Raciocinar numericamente não era uma de suas habilidades. Era uma menina inteligente, de certo, mas diante do professor e dos problemas a serem resolvidos na lousa, seu cérebro travava. Se conseguisse ir um pouquinho além, chegaria na solução correta. Fazia um esforço até que razoável para isso, mas este acabava no momento que começava sua preguiça. Uma preguiça misturada com incapacidade mesmo; com uma neblina que barrava a entrada dos resultados. Ela parava de pensar e roia todas as unhas da mão; as que ainda restavam. E, além das unhas, sofriam também as folhas do caderno que ficavam eternamente marcadas pela força da sua letra. Uma força que vinha do excesso de pensamentos, os mesmos que agora não conseguiam enxergar os números.

…continua

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A certeza

Tenho certeza que você me quer.
Vejo nos seus olhos dispersos, olhando para os meus, disfarçados.
O bom dia era cordial.
Agora é sincero, você faz questão de entrar nos meus pensamentos pela porta do elevador.
Você sempre me via no café, passava por mim sentindo o calor da xícara.
Agora olha, me enxerga, e enche o copo de água até a boca para matar a sede.
Tenho certeza que você me quer.
Aquele dia a caneta era minha, você largou em cima da mesa de uma pessoa que não conhece.
Agora me escreve bilhetes em post-its coloridos, gruda na tela do meu computador e pede para aquela pessoa que você ainda não conhece me avisar.
Um tempo atrás você me chamava olhando para um papel cheio de idéias.
Agora repete meu nome três vezes, tira sarro do meu jeito de andar, e me espera sem papel e a menor idéia do que fazer.

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O casamento

Apaixonados há 10 anos, os noivos estavam imóveis no altar enquanto o padre fazia seu discurso desnecessário. As daminhas enroscavam-se no véu dando um show à parte. Os padrinhos se saíram muito melhor no ensaio. Ainda bem.
Mais flores que no imaginário de qualquer noiva, a festa estava perfeita. Pétalas caíam sobre os convidados que cantavam todas as músicas sem saber a letra. Sim, aquela lá tocou.
Luzes e batons de todas as cores, copos marcados de dedos, pessoas suadas. Tudo havia sido arrumado com perfeição para que os convidados pudessem desarrumar com o maior prazer.
Gravatas e sorrisos soltos, maquiagem borrada, sapatos embaixo das mesas e uma conclusão final. Só existe uma coisa mais esquisita que suas tias de braços levantados dançando Gloria Gaynor: você junto com elas.

A moça e o mar

Pintou-se para a ocasião, colocou o vestido longo de cor carmenere. Fez cachos nos cabelos; lembrou-se daquela última vez. A maresia abraçou sua pele e não soltou mais. O mar estava claro e calmo. Ela também.

A tarde

A tarde estava linda.
E despediu-se laranja por entre as tiras da persiana quebrada.

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