O velho hotel no centro

Será que eu me lembro? Sim, eu me lembro do veludo rasgado das poltronas do saguão, do uniforme roto do concierge, puxa aquele homem já deve ter se orgulhado de trabalhar ali, mas agora ele parecia cansado, ficou encostado na porta de entrada como os castiçais, como as velas que um dia também já devem ter sido acesas para iluminar outros momentos que não o nosso.
Sim, eu me lembro de você naquela noite, naquele saguão, cumprimentando o concierge cansado, debochando das poltronas de veludo, brincando com a chama das velas apagadas. As chaves de todos os quartos intactas nos compartimentos da recepção, menos a nossa, agora em suas mãos.
Eu me lembro de você me puxando, me girando pelo corredor. Se eu lembro do tapete? Não, eu não sentia meus pés. Mas eu me lembro dos seus olhos à meia luz dos lustres empoeirados. Do cheiro da sua respiração, dos móveis, da poeira, de você, da nossa sombra estampada na parede mofada; da música, qual era mesmo? Você inventou na hora, ficou cantarolando no meu ouvido e, então, me levou para um outro estado de consciência, a inconsciência.
Era tudo tão familiar, tão a nossa casa. Eu morava em você, não importavam os lençóis mal lavados, o cobertor comido pelas traças. Nem estava frio, seu calor invadia meu corpo, que agora era seu. Você me fez promessas, planos para depois do check out, para depois que voltássemos da viagem e pisássemos em terra firme. Você também jogou palavras no ar, gemidos, falou da minha beleza. Disse que eu parecia uma estrela de cinema e que aquele seria o nosso filme, uma tórrida história de amor dentro de um quarto no velho hotel do centro.
Então… é só isso que eu me lembro. Não sei o que aconteceu depois que saímos do quarto, quem fechou a porta, quem devolveu as chaves. Alguém pagou a conta? Ou será que ficou pendente como o meu amor. Não prestei atenção no letreiro, você viu meu nome nos créditos? Não vi cartazes, resenhas; nem no jornal, nem nas suas inúmeras cartas de despedida. Mas, passou, tenho certeza que em algum cinema passou. Do contrário, eu não teria me lembrado.

2 Respostas para “O velho hotel no centro”


  1. 1 Anonimo Maio 13, 2008 às 9:40 am

    Eita porra, o que vc foi fazer la? =|

  2. 2 Dani Maio 19, 2008 às 12:35 pm

    Que lindo :)

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