O gosto da noite

Ele pediu para ela voltar como se não tivesse feito nada. Como se importasse, como se aquilo tudo fosse real. Ela quis olhar de novo para aqueles olhos, em parte cerrados, em parte verdadeiros; não era uma pessoa de deixar momentos passarem pela janela do metrô.
Ele disse o que não havia para ser dito, ela fez o que podia ter sido evitado. Cedeu, sorriu, ouviu todas as verdades. Viu os desenhos grudados na parede, as capas dos livros e, então, entendeu o menino perdido entre a bagunça das roupas e a vontade de fugir.
Uma tempestade de areia invadiu o quarto e trouxe mais um breve momento. Deitaram-se sob os lençóis da noite anterior, ela sentiu outra vez o cheiro de fim de noite. Sussurros dele, o silêncio dela; o desejo dele, os pensamentos dela; o que era ontem não era mais nada.
O frio aumentou, a coberta não cobriu a falta. E antes que o dia nascesse para os dois, era melhor acabar com aquela soma que nunca foi o resultado das partes. Levantou-se com o corpo ainda trêmulo e beijou o seu rosto. Ele retribuiu o carinho com um abraço sincero que preencheu o vazio, mas não conseguiu tirar o gosto amargo do gim.

1 Resposta para “O gosto da noite”


  1. 1 Jr Maio 10, 2008 em 10:50 pm

    é uma experiencia

    eu mesmo ja passei por isso…em historias diferentes, que se sobrepostas, sai quase isso…mas ainda acho que minha vida nao da um bom romance…mas com PS3, quem precisa de um bom romance?
    Caroca, vc é meu idolo

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