Eu tenho um lance com sapatos. Eles carregam na sola toda a minha história ilustrada com os mapas dos caminhos que trilhei e que perdi.
Nunca gostei dos sapatos convencionais, esses que você encontra em qualquer pé andando por aí. Também nunca usei modelos discretos, que vão com tudo. Os sapatos têm que ir comigo; e eu não sou bege.
Sempre abusei de cores, texturas e estampas. Quero que as pessoas me olhem dos pés à cabeça, não o contrário. Minha personalidade está toda ali, minhas marcas, minhas pisadas na bola. Os ralados do couro dizem mais sobre mim que as rugas no meu rosto.
Para cada momento da vida eu tenho um sapato. E, ao contrário do que se pensa, uso os mais frágeis no dia-a-dia. Os mais robustos, deixo para as grandes ocasiões. As que corro o risco de escorregar na pretensão ou na ilusão. As que derrapo, que fico de perna mole ou preciso enfrentar subidas e descidas. Nestas ocasiões, conto com o apoio dos meus sapatos.

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