Algumas horas

A noite de lua cheia estava fria, mas os aquecedores portáteis deixavam o clima agradável. As poucas opções do cardápio eram muitas, maior ainda era a preguiça de ler a descrição dos pratos. Um croque moussier, por favor, o madame estava em falta. Lastimável. Um bistrô sem ovos chega a ser pior que uma cantina sem molho de tomates.
Aquelas eram suas primeiras sensações do dia. Seu primeiro gole de água, seu primeiro contato com a rua. Carros passando, casais caminhando, o sábado estava cheio de pessoas, todas vivendo sua 3ª refeição. Pensou em pedir uma taça de vinho, mas preferiu a boa e velha água com gás. Combinava mais com o desjejum.
Estava uma delícia, mais queijo do que presunto, o pão gratinado na medida certa. A salada de acompanhamento estava mais para um boa companhia, o café expresso trouxe o gostinho final de satisfação.
Uma escolha muito feliz. Tanto a do prato, quanto a do tempo. Há dias que fazem muito mais sentido quando duram apenas 3 horas.

Até mais tarde

Colocou o celular na função soneca 3 vezes. Durante estes poucos minutos, sonhou que estava no banho, que o celular tocava de novo e que já estava vestida, não exatamente nesta ordem. A luz que vinha da porta do banheiro incomodava, mas o seu rosto pesava no travesseiro novo que, juntos, eram uma coisa só.
Foi vencida pelo senso de responsabilidade. Levantou-se arrepiada de frio e de sono, tirou o pijama e entrou num banho quente o suficiente para continuar se sentindo embaixo do cobertor. Como sempre, o banho foi muito mais eficiente que o despertador. O sorriso dele mais ainda. Uma nova manhã acabava de entrar no quarto desarrumado. Os cabelos molhados, a toalha macia e o abraço úmido diziam que aquele seria um bom dia. Faltavam agora o pãozinho quente, o café com espuminha de leite e um “até mais tarde”.

Blueberry muffin

Fazia o mesmo caminho todos os dias. Saía do metro e subia as escadas imundas. Os cartazes colados e recolados na parede também eram imundos. E rasgados. E, apesar de suja, a cidade tinha cheiro de música. O guitarrista que ficava na esquina se apresentava a um público eclético, meninas de cabelos cor-de-rosa mascando chicletes, homens de cabelos grisalhos com seus tablóides embaixo do braço. Nunca havia parado para ouvir uma música inteira, mas foi juntando os pedaços e acabou decorando o repertório.
A rua estava sempre igual, as vendinhas, os sebos, um seguido do outro, todos com os mesmos livros em edições diferentes. O barulhinho do sino alertava alguém entrando ou saindo do café onde ela parava para comprar um blueberry muffin. E lá estava ele, sempre ocupado, mas sempre atencioso. Quando a via, logo tirava o saquinho com o pedido que ela já não precisava pedir. Trocavam olhares, sorrisos e moedas, mas jamais ultrapassariam a segura distância delimitada pelo balcão.

O tapete de pele de vaca

Estou precisando dar uma espairecida, jogar umas letras fora. Está tudo tão corrido, com tantos nós a serem desfeitos, chego a estar com dor nas mãos. Dias difíceis seguidos de noites mal dormidas, 15 minutos de intervalo para o café que desce queimando. Sempre esqueço de assoprar.
Ainda arde. A dor não vai embora no banho, ficou impregnada como aquela mancha que não sai nem com água fervendo. Não adianta esfregar, não adianta falar, preciso mesmo é criar coragem para jogar a roupa fora.
Impressionante como o meu quarto é frio e eu nunca tinha me dado conta. A TV passa a noite falando sozinha, eu também. Outro dia o jornal das 11 me respondeu, disse que a guerra ainda não acabou.
Continuo levantando as bandeiras, só que agora levanto a cabeça depois. Tento acreditar que a vida continua, mas, no fundo, eu só queria que você visse o tapete de pele de vaca que eu coloquei na sala e dissesse, sem medo de me magoar, que a minha vida não combina com você.

Meio-amargo

Acabei de comer um chocolate meio-amargo que, por coincidência, me trouxe uma amargura que eu não sentia há anos. Não me lembrava disso. Na verdade, não sei se me lembro de já ter sentido algo assim. Com esse gosto meio-ruim, meio-qualquer coisa, meio-difícil de digerir.
Está tudo tão estranho, não me reconheço mais. Os sentimentos estão caindo da minha cintura igual todo o meu guarda-roupa. Os kilos de vontade extra não apontam mais na balança. Acho que morri e reencarnei dentro de um corpo estranho, magro, sem aquela esperança engordurada que mantinha meu coração quente. Sou o saquinho de plástico vazio que voa a esmo, sem graça, e sem ter para onde ir.

Opção

Sua futura mulher experimentava o vestido de noiva quando a viu, através do vidro, tomando um café. Entrar ou não entrar. Hesitou. Optou por casar-se.
Anos depois encontraram-se no mesmo café. Falar ou não falar. Hesitou. Optou por um expresso duplo.

Por acaso, nas montanhas

Eu tinha certeza que te encontraria por acaso e, com cara de surpresa, comentaria tamanha coincidência. Você, educado, retribuiria o sorriso e, por querer, fecharia os olhos na tentativa de fazer aquele instante não existir.
Duas ou três palavras, um comentário sobre o trânsito, o tempo, a cor da sua camiseta. Eu, você, a sua mão na dela, a comida que não desceu bem.
Trezentas páginas de um único pensamento, 100 anos da nossa solidão e, agora, um outro romance na sua cabeceira. Um livro novo, fácil, daqueles que vêm no lugar do que não terminava nunca.
Mas não, o acaso não ajudou. Você não estava no bar, nem na esquina, nem no caminho novo que aprendi de tanto desviar.
O dia passou, você bem longe lá nas montanhas, eu em todos lugares menos em você. Senti errado, você não estava. E não foi por acaso.

Foto

A frase

Eu queria descobrir a frase.
O resumo.
O atalho desse pensamento.
Onde está o Millôr nessas horas?
Só isso, uma frase.
Uma pessoa seguida de um verbo seguido de um objeto.
Duas ou três palavras que façam sentido.
Ou não.
Pode esquecer as preposições.
Adjetivos também são dispensáveis neste caso.
O pronome é aquele lá mesmo, o de sempre.
Bastam algumas firulas, uns superlativos.
Onde diabos se meteu essa frase?
Peraí, vamos ver se está lá na última página.
Pronto, encontrei.

Indo

Fiz minha mala.
Vou partir hoje para uma longa viagem em volta do perímetro humano.
Separei os sapatos vermelhos e brilhantes da Dorothy, vou com eles. Embrulhei um coração de doce de abóbora no papel alumínio, peguei a memória fotográfica e o recarregador de um antigo celular. Engraçado, tem tantos aqui em casa e mesmo assim a bateria acabou.
Já tracei a rota.
Escolhi um caminho sem terra, céu e ar. Essas pequenas coisas me lembram você.
E como sei que o percurso é longo, estou levando uma moringa com litros e litros de história para quando eu precisar matar minha vontade de voltar.
Deixei tudo o que eu tinha de mais valioso, as joias, as porcelanas, as suas digitais. Coloquei na necessaire apenas aquele batom cor de boca, da minha boca, lembra?
Entreguei a chave dos fundos para o vizinho que mudou e a da frente para o porteiro folguista, caso você tenha esquecido de pegar alguma coisa. Não tenho certeza, mas acho que vi sua sombra um dia desses.

Foto

Vendaval

E tem aquela hora que as coisas escapam das suas mãos como areia num vendaval. Instaura-se o caos. Você fica estático, inerte, incapaz. Tudo inexiste, suas forças inclusive. A única saída é o túnel gigante que nasce na expectativa e termina na frustração. Sua imagem e semelhança está lá refletida no asfalto. O nada preenche o vazio do tempo e o tudo já foi sem deixar marcas pelo caminho. Não há nada mais o que fazer além de não estar em sã existência.

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