Sorte de quem tem sorte

Marcaram uma reunião de condomínio para terça-feira passada e, por sorte, eu tinha compromisso. Só que, para o meu azar, descobri que o sorteio anual de vagas de garagem seria realizado neste dia. O síndico do meu prédio, um senhor muito prestativo, se ofereceu para me representar. E para minha sorte, ele teve uma tremenda sorte e pegou a melhor vaga de todas. Vou passar o próximo ano sem precisar fazer uma manobra.

E por falar em sorte, hoje não peguei trânsito nenhum. Isto aconteceu porque houve um acidente logo antes da entrada da Marginal que costumo entrar. Quem estava para trás não teve tanta sorte assim. Sem falar dos donos dos carros que colidiram e, por sorte, não se machucaram. Com a pista tranquila, pude observar os girassóis que foram plantados à margem do rio Pinheiros. Que falta de sorte, pensei. Podiam ter nascido no jardim de Versailles.

garagem

Devolva o Neruda que você me tomou

Eu estava só revirando a estante de livros quando o Neruda, com cheiro de guardado, devolveu o amor que você me tomou. E nunca leu.

………..

Pensei morrer, senti de perto o frio,
e de quanto vivi só a ti deixava:
tua boca eram meu dia e minha noite terrestres
e tua pele a república fundada por meu beijos.

Nesse instante terminaram os livros,
a amizade, os tesouros sem trégua acumulados,
a casa transparente que tu e eu construímos:
tudo deixou de ser, menos teus olhos.

Porque o amor, enquanto a vida nos acossa,
é simplesmente uma onda alta sobre as ondas,
mas ai quando a morte vem tocar a porta

há teu olhar apenas para tanto vazio,
só tua claridade para não seguir sendo,
só teu amor para fechar a sombra.

- Neruda (Cem Sonetos de Amor)

Crenças e bundas

Outro dia comentei no facebook que, apesar de ser totalmente contra o trabalho infantil, contrataria redatores de 5 anos para criar os filmes publicitários de Natal. Como é que pode sair alguma coisa realmente boa de uma cabeça de 34 anos que não acredita em Papai Noel nem em propaganda?

Minha filha Elisa acredita em Papai Noel. E em propaganda. Canta os jingles, dos piores aos menos piores, e sai correndo para me pedir a nova Barbie no instante seguinte que acaba o comercial. E eu não posso ser hipócrita e proibi-la de ver televisão. Até porque, graças ao novo conceito de propaganda 360º, a boneca persegue minha filha na escola, no supermercado e na casa das avós.

Então, retificando, eu acredito sim em propaganda. Mais do acredito em Deus e em cremes para celulite que, aliás, nem precisam fazer propaganda porque vendem por si só. Não tem uma mulher, nesta vida pelo menos, que não sonha em ter a bunda lisinha como a da Barbie.

Barbie

Pais e filhos

O problema de colocar os filhos em escolas que seguem a linha construtivista é conviver com os pais dos amiguinhos; uma turminha formada por donos de ONGs, publicitários bem sucedidos, empresários da era da sustentabilidade, psicólogos e amigos da Heloisa Helena.
Primeiro veio a comoção geral ao constatar-se que as crianças já conseguem diferenciar círculos de quadrados. Talvez o momento mais humanista da reunião de pais que seguiu com a explicação do trabalho realizado durante o ano e culminou com uma discussão sobre a descoberta da sexualidade.
Não sei por que razão todo mundo adora falar deste assunto. Um engravatado começou (outro dia meu filho me perguntou o tamanho do meu pinto), daí veio uma outra (eu sempre digo para minha filha que ela pode fazer o que quiser com o “pipi” contanto que lave as mãos).
Bizarrices a parte, o troca-troca até que foi proveitoso. Agora tenho uma vaga noção de como agir caso minha filha comece a se masturbar no sofá da sala em pleno almoço de domingo.
Quando eu já estava me levantando para ir embora, lançaram o assunto mais polêmico da noite: a partir do ano que vem as crianças serão obrigadas a usar uniforme!
Parece mentira, mas a questão gerou uma discussão filosófica sobre a democracia, a liberdade de expressão, os direitos das crianças virem fantasiadas de Batman ou, se preferirem, de homem aranha.
De repente, eu estava no meio da revolução pré-escolar de 1968. Tive que pegar minha bolsa e sair correndo antes que começasse uma guerra de mini-cadeiras.

revolução

Caloi Ceci

Sentiu aquilo de novo, mas sabia que era mentira. Sentimentos são como monstros, não existem. Lembrou da sua mãe no dia que caiu da Caloi Ceci pela primeira vez “por acaso você esfolou os dois joelhos para chorar deste jeito?”
Não era mais criança para acreditar em dor. E mesmo que fosse verdade e seu coração estivesse realmente todo esfolado, merthiolate não arde mais.

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3- Inveja (dos 7 pecados capitais)

O guloso é um gourmet.
O ambicioso, um profissional de sucesso.
O avarento fica cheio da grana.
O ninfomaníaco tende a ser bom de cama.
O preguiçoso é um bon vivant.
O irado coloca a raiva pra fora.
E o invejoso é um babaca.

Posso estar enganada, mas não sinto inveja de ninguém. Nem aquela inveja branca, como dizem os invejosos mentirosos. Ou as pessoas à minha volta são muito pouco interessantes ou aprendi a não me achar pior do que os outros. É o que acontece com quem passa a vida inteira sentindo inveja. Quando percebe que não dá para ser diferente, come um chocolate.

inveja

Querido

Andre,

Estou escrevendo este email para a Aná ou o Sandro ler pra você. Pena não ser uma carta como aquelas que recebíamos em Londres. Eu ainda me lembro como é a sua letra de mão, sabia? Sei tantas coisas de você, sei que seu nome não tem acento.
É impossível pensar em qualquer que seja a parte da minha vida sem que você esteja nela. Quando não é do meu lado é nas memórias ou nas histórias que conto pra todo mundo.
Sabe quantas vezes eu já contei aquela do negão rastafari que vivemos em Londres? E a da festa no apartamento dos meus pais com porradinha de sprite e pinga que fomos parar no quarto da Maria? Ah, tem também aquela na casa do Leonel que eu dormi na mesa. Tinha passado 30 horas viajando pra chegar lá no cú da Suíça só pra te encontrar e vocês ficaram a noite inteira falando francês.
Putz, nem vou começar. Como vinte anos podem caber num email? E hoje em dia é assim, né. Tudo por email. Nada de cartas, caixas de correio, envelopes cheios de fotografia. Em menos de um segundo podemos dizer “eu te amo”. Aliás, Andre, eu já disse que te amo? Bom, vou dizer de novo – eu te amo. E, desta vez, é para chegar até você em menos de um segundo.
Dé, meu coração está aí do seu lado como sempre esteve apesar dos últimos anos que ficamos distantes. Eu já estava de malas prontas para te visitar, como você sabe, e elas continuam aqui paradinhas. Sei que vai ficar bom logo e eu não vejo a hora de tomar um café com você e ouvir todas as coisas maravilhosas que tem para me contar. Quero saber do Vincenzo, já fiquei sabendo que ele é uma pessoa especial. Quero conhecer seu apê novo e dar pitacos na decoração. Quero saber de tudo nos mínimos detalhes.
E eu também tenho coisas para contar. Vou falar da minha filha Elisa – talvez este seja o único pedaço de mim que você não saiba de cor.

Com todo amor deste mundo,

Carol

Andre
- Londres, 1997

En passant

Hoje eu revi o filme do “vento”. O que me fez pensar que existem outros pontos de vista além do meu – o do sapato que me aperta o pé e que deve se sentir bastante pressionado. Do controle remoto da minha TV que não agüenta mais levar porrada por culpa de terceiros, no caso, as pilhas que estão fracas. Do pó que vive viajando e quando consegue relaxar em cima dos móveis é massacrado pela flanela que (coitada) nasceu para lutar contra a sujeira e não sabe por quê. Do jornal que tenta puxar assunto comigo todo dia pela manhã e eu nunca tenho saco de dar atenção. O filme do “vento” é só um comercial. Mas me trouxe um novo ponto de vista – dá sim para fazer propaganda que faz pensar.

Cyan 100%

Triste é um fim de semana com cara de meio. Na quarta-feira temos a expectativa da sexta. No domingo espera-se o nada.

O início é um mal inevitável. O motor tem que funcionar e o cérebro precisa sair da garagem. O melhor que pode acontecer é a segunda ter cara de segunda. Nada menos.

Fim de semana triste com dias lindos. Um paradoxo até que freqüente para quem não gosta de sorrisos reluzentes, bicicleta e asfalto quente.

A ausência de nuvens, vento, raios e trovoadas é o sol em sua mais completa solidão.

céu

Pequenas diferenças

Ele: – Cada hora você quer uma coisa.
Ela: – Cada hora você quer uma mulher.
……..
Ele: – Isto está ficando sério demais.
Ela: – Você é mesmo muito engraçado.
……..
Ele: – Nem sempre é você quem está certa.
Ela: – Você tem outra?
…….
Ele: – Não gosto de discutir a relação.
Ela: – Você quer falar sobre isso?

banheiro

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